Durante a pandemia, nós, voluntários do Instituto Sementes, dedicamos parte do nosso tempo aos sábados para a distribuição de marmitas nas ruas; em especial, em uma avenida próxima ao metro Marechal Deodoro. Com o tempo, passamos a ser conhecidos pelos moradores desta região, como o pessoal do “ravioli”, já que a nossa marmita, elaborada em parceria com empresa “Preparato”, tinha sempre por uma massa deliciosa de ravioli com molho de tomate. A refeição chegava sempre quentinha, no ponto … Dava até gosto de ver as pessoas saboreando aquele “prato de restaurante dos Jardins” (como diziam alguns). Assim que chegávamos neste local aos sábados, por volta das 11:30h, os próprios moradores de rua começavam a se organizar em uma fila. E antes de iniciarmos a distribuição, pedíamos a benção sobre a comida, orando o “Pai nosso” juntamente com eles. Este era sempre um momento emocionante, e por várias vezes, não consegui chegar até o final da oração… Eu me segurava para não chorar, e ficava contemplando aquele momento único, onde nossas vozes se uniam à deles, realçando a nossa condição de igualdade, a partir das mesmas necessidades.

O “pão nosso de cada dia” representa a necessidade básica de todo ser humano, independente da raça, gênero, crença, status social… Uma cena impactante, que simbolizou muito bem este fato, foi vista por mim (juntamente com outro grupo de voluntários) no templo Sikh, na Índia, durante uma viagem de missão. Neste templo, enorme e imponente, voluntários locais se revezam diariamente na preparação da comida, que é servida gratuitamente ao longo do dia, de domingo a domingo. As pessoas comem sentadas no chão em filas organizadas. Passado o tempo (por volta de 30 minutos), todos saem para que uma nova turma entre para comer. Indianos de qualquer casta, assim como visitantes ou estrangeiros de qualquer lugar, podem se unir aos voluntários para amassar o pão, e/ou comer naquele local. “Temos todos as mesmas necessidades, aqui os ricos comem ao lado dos pobres, os estrangeiros ao lado dos indianos… Aqui somos todos iguais, e perante Deus, é assim que acontece.” As palavras do guia Sikh me fizeram refletir no quão presos nos encontramos dentro das nossas categorias hierárquicas e sociais, nos esquecendo de que, perante Deus, não existe distinção de raça, credo ou gênero.

 

O “pão nosso de cada dia”, além de satisfazer uma necessidade de natureza fisiológica, tem o poder de agregar, promover troca de experiências, aprendizado… E o “Pai nosso”, também tem o poder de promover encontros memoráveis com Deus e com o próximo. Esta é uma realidade transformadora, na qual podemos sentir os seus efeitos nas nossas vidas e nas vidas com as quais nos relacionamos.

Que o “Pão nosso de cada dia”, assim como o “Pai nosso de todos os dias”, continuem sendo experimentados e compartilhados por todos nós… A cada encontro, a cada fala, a cada olhar.